Complicações psiquiátricas do uso crônico do álcool - Cláudia Maciel, Florence Kerr-Corrêa
* Professora do Instituto de Educação Continuada da PUC
Minas; professora de psiquiatria da FATEC –Minas Gerais
claudiamaciel@terra.com.br ** Professora titular de
Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Botucatu, Unesp, CP
540, 18618-970, Botucatu, São Paulo; fcorrea@fmb.unesp.br.
Resumo: A síndrome de abstinência
alcoólica é um quadro agudo, caracterizado por um conjunto de
sinais e sintomas autolimitados, com gravidade variada,
secundário à interrupção total ou parcial do consumo de
álcool, podendo ser associado a inúmeros problemas clínicos
e/ou outros transtornos psiquiátricos. O objetivo deste artigo
é rever as principais complicações psiquiátricas secundárias à
síndrome de abstinência alcoólica com convulsões e delirium
tremens, bem como algumas outras condições psiquiátricas
associadas a dependência de álcool como as síndromes de
Wernicke Korsakoff e de Marchiava Bignami. Pretende-se com
isso auxiliar no diagnóstico precoce e tratamento adequado,
minimizando assim a morbidade e a mortalidade associadas a
tais complicações. Descritores: síndrome de abstinência
alcoólica; síndrome de Wernicke Korsakoff; convulsões;
delirium tremens; síndrome de Marchiava
Bignami. Abstract Alcohol withdrawal syndrome is an
acute condition secondary to total or partial reduction of
alcohol consumption, characterized by self limited signs and
symptoms and different degrees of severity. It can be
complicated by several clinical and/or other psychiatric
related problems. The objective of this article is to review
the most important psychiatric complications to alcohol
withdrawal syndrome as well as other psychiatric disorders
associated with alcohol dependence as Wernicke Korsakoff and
Marchiava Bignami syndromes. We aim to promote early diagnosis
and treatment of these conditions, minimizing morbidity and
mortality associated with them. Keywords: alcohol
withdrawal syndrome; Wernicke Korsakoff syndrome; seizures;
delirium tremens; Marchiava Bignami syndrome.
Introdução A síndrome de abstinência
alcoólica (SAA) é responsável por um aumento significativo na
morbidade e mortalidade associadas ao consumo de álcool e é um
dos critérios diagnósticos da síndrome de dependência de
álcool. Caracteriza-se por sinais e sintomas decorrentes de
uma interrupção total ou parcial de consumo de bebidas
alcoólicas em dependentes que apresentam um consumo prévio
significativo. Esses sinais e sintomas não são específicos
somente da síndrome de abstinência alcoólica, podendo estar
presentes em outras síndromes de abstinência (por
benzodizepínicos, por exemplo). São, ainda, insidiosos e pouco
específicos, o que torna seu reconhecimento e avaliação
processos complexos; variam quanto à intensidade e gravidade,
podendo aparecer, como dito, após uma redução parcial ou total
da dose usualmente utilizada. Os sinais e sintomas mais comuns
da SAA são, entre outros, agitação, ansiedade, alterações de
humor (disforia), tremores, náuseas, vômitos, taquicardia e
hipertensão arterial. Este artigo tem por objetivo
descrever as principais complicações secundárias a SAA bem com
o seu tratamento. Algumas delas são bastante comuns
(convulsões e alucinações); outras, mais graves e menos comuns
(delirium tremens). Além disso, descreve e propõe o tratamento
de outras complicações associadas ao dependência de álcool
como o síndrome de Wernicke Korsakoff e o de Marchiava
Bignami)12. Convulsões Quadros convulsivos secundários
ao abuso/dependência de álcool não são raros, bem como não é
incomum a piora do controle de convulsões em pacientes com
história prévia de convulsões (idiopáticas ou não)10. As
convulsões secundárias a quadros de abstinência alcoólica são,
geralmente, do tipo tônico-clônicas (ou “grande mal”), únicas,
e incidem nas primeiras 48 horas (com pico entre 13 e 24
horas) após a suspensão ou redução do consumo de álcool.
Entretanto, sintomas focais podem aparecer em cerca de 5% dos
quadros convulsivos secundários à abstinência alcoólica. Quase
sempre, o aparecimento de convulsões está associado a quadros
mais graves de abstinência alcoólica, e grande parte dos
pacientes que não são tratados adequadamente evolui para
delirium tremens 7, 18. Há indicação para avaliação de
imagem de quadros de convulsão secundária à abstinência
alcoólica (tomografia computadorizada, por exemplo), para que
se detectem doenças comórbidas (hemorragia subdural crônica e
traumatismos cranianos, por exemplo). Cerca de 4% das
tomografias realizadas em pacientes com quadro convulsivo
secundário à abstinência alcoólica evidenciam lesões
estruturais. A tomografia computadorizada está também indicada
em casos de convulsões outras, que não do tipo grande mal, em
pacientes abstinentes, devido à maior prevalência de co
ocorrência de lesões nesse grupo16 . A chance de ocorrência
de outra crise convulsiva, em seis meses, é de 41%, e essa
prevalência aumenta com o passar do tempo, chegando a 55%, em
três anos 11,16,. Novos episódios de crises convulsivas
poderiam desencadear quadros de alterações secundárias na
excitabilidade cerebral (kindling) que parecem ser somatórios,
ou seja, a cada nova crise convulsiva, o quadro se agrava.
Define-se o kindling como um fenômeno em que um estímulo
elétrico ou químico, fraco, que normalmente não causaria
resposta comportamental importante, quando administrado várias
vezes, desencadeia o processo. O kindling pode resultar de
alterações em neurotransmissores cerebrais (GABA e NMDA,
principalmente) que, conseqüentemente, aumentam a
excitabilidade cerebral, predispondo ao risco de novas crises
convulsivas, quadros ansiosos e aumento da neurotoxicidade 1.
Se alterações estruturais não são identificadas no paciente
com crise convulsiva secundária à abstinência alcoólica, se
ele não tem história prévia de crises convulsivas e nem usou
anticonvulsivantes previamente, os anticonvulsivantes não
parecem ser indicados, podendo, em alguns casos, precipitar a
ocorrência de convulsões por abstinência (dos
anticonvulsivantes, inclusive). O tratamento de escolha é o
controle da crise convulsiva por meio de infusão de
benzodiazepínicos e tratamento específico para controle da
dependência de álcool11. Deve-se administrar no máximo 10mg de
diazepam durante 4 minutos, sem diluição e a administração de
benzodizepínicos por via intravenosa requer técnica específica
e retaguarda para manejo de eventual parada respiratória 12. O
uso crônico de anticonvulsivantes (fenitoína e fenobarbital,
dentre outros) tem uma ação limitada na prevenção de quadros
convulsivos decorrentes de abstinência alcoólica, uma vez que
o problema central do paciente é o uso do álcool e, na imensa
maioria dos casos em que há manutenção do consumo de álcool
(portanto, risco de novas crises convulsivas), a não-adesão ao
tratamento medicamentoso é quase uma regra, podendo essa ação,
por si só, precipitar uma nova crise convulsiva. Entretanto,
em pacientes com uso prévio de anticonvulsivantes, a medicação
deve ser mantida. A prevenção mais efetiva, nesse grupo de
pacientes, é, sem dúvida, o tratamento para suspensão do
consumo de álcool e indica-se, quando necessário, o uso de
benzodiazepínicos de ação longa (diazepam, por ex.) na dose de
10 a 20mg ou uso de lorazepam, em dose equivalente, em
paciente hepatopata ou senil 1,12. Não se justifica a
introdução de anticonvulsivantes nessa população, nem para o
tratamento da crise convulsiva nem para a prevenção de novas
crises. O estado de mal epiléptico é um quadro grave, com
alta taxa de mortalidade (cerca de 10%) e não é raro entre
pacientes com síndrome de abstinência alcoólica. Um estudo
realizado em 1980 demonstrou que 21% dos pacientes em estado
de mal do tipo tônico-clônico estavam em abstinência
alcoólica. O tratamento desse quadro deve ser instituído o
mais brevemente possível, em unidades de atendimento de
urgências clínicas 7,12. Delirium tremens (DT) O
delirium é uma causa comum de comportamento alterado em
pessoas com alguma doença física que não foi diagnosticada nem
tratada de forma adequada. Vários termos ao longo dos anos
foram usados para descrever essa síndrome, incluindo estados
confusionais agudos, síndrome cerebral aguda, psicossíndrome
cerebral aguda e reação orgânica aguda. O DT é um quadro
específico de delirium, relacionado com a abstinência do
álcool. Quadros de delirium usualmente apresentam sintomas
flutuantes, com piora significativa à noite. São comuns
alterações cognitivas, da memória e da atenção e desorientação
têmporo-espacial. A atenção diminuída e distúrbios do
pensamento resultam em fala incoerente. Parentes e outros
informantes podem relatar um rápido e drástico declínio no
funcionamento pré-mórbido de um paciente, o que o diferencia
dos que apresentam quadros demenciais. São comuns alterações
sensoperceptivas (alucinações e ilusões), sendo as alucinações
visuais bastante comuns. Delírios também são freqüentes, em
geral persecutórios e relacionados à desorientação
têmporo-espacial. Alterações do humor são usuais e variam
desde intensa apatia até quadros de ansiedade intensa; a
presença de alterações no ciclo sono-vigília é constante.
Infelizmente, como dito, muitos casos não são adequadamente
detectados e, portanto, não são tratados 3. Nem toda
abstinência é um DT. Na verdade, o DT é uma condição pouco
freqüente entre os dependentes de álcool, ocorrendo em menos
de 5% da população em abstinência. No entanto, ele é
responsável por grande morbidade e mortalidade associadas à
SAA, já que quadros de DT não são, como se disse,
adequadamente diagnosticados. O DT, habitualmente, inicia-se
até 72 horas (embora possa começar até sete dias) após de
abstinência e compreende sinais e sintomas variados, como
confusão mental, alucinações, tremores, febre (com ou sem
sinais de infecção) e hiperresponsividade autonômica, com
hipertensão, taquicardia e sudorese. Deve-se suspeitar de DT
em todos os casos de agitação em um paciente com SAA cuja
pressão arterial esteja acima de 140/90mm Hg, freqüência
cardíaca seja maior que 100 bpm, e temperatura, superior a
37ºC. Taxas de mortalidade são elevadas, variando de 5% a 15%
dos pacientes com essa condição. Poucos estudos, no entanto,
definem adequadamente quadros de DT levando em consideração
comorbidades clínicas/psiquiátricas, traumas, etc. A causa
mais freqüente de morte é falência cárdio-respiratória. A
fisiopatologia dos quadros de DT continua pouco compreendida.
As mudanças fisiológicas resultantes do DT decorreriam de
interações de neurorreceptores (principalmente sistemas
gabaérgico e catecolaminérgico), bem como de alterações
iônicas (potássio e magnésio, principalmente) 5,8. O
tratamento dessa condição é feito, usualmente, com
benzodiazepínicos, visando diminuir a hiperatividade
autonômica e o risco de agitação psicomotora. Dá-se
preferencia ao diazepam em dose mais elevada que as usualmente
utilizadas (60mg/dia) ou lorazepam (12mg), se o paciente for
hepatopata ou senil. Eventualmente, a associação de
neurolépticos, em doses baixas, pode ser indicada (haloperidol
5mg/dia). No caso de ocorrer distonia induzida por
neurolépticos (particularmente se forem administrados por via
parenteral), ela pode ser controlada com o uso de
anticolinérgicos (biperideno 2mg) 5,12
Síndrome de Wernicke Korsakoff (SWK) A SWK é uma
complicação potencialmente fatal associada à deficiência de
vitamina B1 ou tiamina. Foi descrita como duas entidades
distintas – encefalopatia de Wernicke e psicose de Korsakoff.
A síndrome é composta por uma tríade de anormalidades
clínicas descritas por Wernicke – oftalmoplegia, ataxia e
confusão mental. Esses seriam os pilares no diagnóstico da
síndrome; porém, a presença de todos esses sintomas não é
necessária para o diagnóstico de SWK, sendo mais
rotineiramente encontrados sinais isolados (de oftalmoplegia
e/ou desorientação e/ou estupor e/ou coma). Os movimentos
oculares podem consistir em nistagmo horizontal e vertical,
fraqueza ou paralisia do músculo reto lateral e do olhar
conjugado. Em casos avançados, pode-se encontrar oftalmoplegia
completa. A confusão mental é caracterizada por diminuição do
estado de alerta e atenção e alteração senso-perceptual e da
memória. Quadros de confabulação são comuns nesse grupo de
pacientes. Algumas vezes há progressão para coma 14. As
necessidades diárias de tiamina são estimadas em 1,0 –
1,5mg/dia em pacientes normais. A tiamina é um importante
co-fator da enzima piruvato desidrogenase e alfa-cetoglutarato
desidrogenase, envolvida no metabolismo de carboidratos e da
transcetolase, uma enzima importante da via das pentoses. A
tiamina está naturalmente presente em cereais e muitas
farinhas. No entanto, o processamento desses grãos resulta em
perda de grande parte dessa vitamina. Vários países (EUA,
Inglaterra, Canadá e Dinamarca) enriquecem as farinhas com
tiamina; com essa medida, a deficiência de tiamina ficou
restrita a alguns grupos de pacientes. A SWK é uma síndrome
comumente associada à dependência de álcool e, em alguns
casos, a alguns tipos de câncer, hiperemese gravídica,
obstrução de intestino delgado, anorexia nervosa e
gastroplastia. O consumo crônico de álcool está relacionado à
baixa absorção de tiamina pelas células intestinais, bem como
à menor fosforilação da mesma, em sua forma ativa, e
diminuição do estoque hepático de tiamina. Esses fatores,
associados à menor ingestão de alimentos contendo tiamina,
podem ser em uma das causas da baixa concentração de tiamina
nos dependentes de álcool 9. Vários mecanismos têm sido
implicados na patogênese dessa síndrome, mas ainda não são
totalmente compreendidos. Uma das explicações são as perdas
neuronais, e os mecanismos para essa morte cerebral incluem
deficiência energética cerebral, excitoxicidade mediada pelo
glutamato, acidose láctica focal e alteração da barreira
hematoencefálica. A acidose láctica focal pode ser um dos
mecanismos que levam a uma deficiência de tiamina cerebral
(reduzindo a permeabilidade à tiamina no cérebro). A
explicação mais plausível para esse fenômeno parece ser uma
diminuição da oxidação do piruvato, resultante da diminuição
da atividade das desidrogenases dependentes de tiamina. Com o
acúmulo de lactato nos neurônios, há uma alteração de pH
(acidose), gerando morte celular. A intensa formação de
radicais livres também está associada a quadros de SWK. A
administração crônica de álcool em ratos, com subseqüente SAA,
causa um aumento na formação de radicais livres em várias
regiões cerebrais, bem como aumento da molécula de óxido
nítrico pela metabolização do etanol 6. Em animais nos
quais a deficiência de tiamina foi induzida experimentalmente,
a microdiálise demonstrou aumento significativo de glutamato
extracelular, seletivo para o tálamo posterior ventral. Essas
mudanças são reversíveis com administração de tiamina no
córtex e na ponte cerebral, mas não no tálamo. Nas regiões
onde há esse excesso da atividade glutamatérgica, pode haver
uma neurodegeneração excitotóxica. Não obstante, evidências
diretas são necessárias para apoiar uma relação entre
deficiência de tiamina e mudanças no receptor de NMDA 6,19.
As características anátomo-patológicas variam de acordo
com o estágio e a gravidade da patologia. Pacientes em fase
aguda podem ter alterações em corpos mamilares, hipotálamo,
região periventricular do tálamo (acima do aqueduto). Os
corpos mamilares, especialmente os núcleos mediais, são as
estruturas mais amiúde afetadas e estão acometidos em quase
todos os casos. Exames histopatológicos, em casos agudos,
demonstram edema, necrose, desmielinização, discreta perda
neuronal, degeneração esponjosa e aumento de vasos sangüíneos
como resultante da hiperplasia; quando há hemorragia
petequial, eritrócitos e hemossiderina estão presentes, bem
como macrófagos. Nos casos crônicos, há perda neuronal mais
marcante e gliose 2. O diagnóstico é clínico, sendo a
ressonância nuclear magnética um exame complementar útil na
detecção dessas lesões cerebrais, enquanto a tomografia
cerebral é, em muitos casos, ineficaz. A SWK é mais uma das
complicações da dependência de álcool freqüentemente
subdiagnosticada 3,8. O tratamento dessa condição ainda
não está adequadamente estabelecido no que tange à via e à
dose de tiamina necessária tanto para a prevenção quanto para
o tratamento, não sendo do conhecimento das autoras deste
artigo nenhum estudo bem conduzido; a maioria das
recomendações de suplementação vitamínica é de base empírica8.
A dose de tiamina preconizada pelo consenso sobre a síndrome
de abstinência do álcool foi de doses acima 300mg de tiamina
por dia, por via intramuscular, por um período de 7-15 dias. O
uso por via oral não está indicado para prevenção de Síndrome
de Wernicke Korsakoff pois a absorção de tiamina pode estar
prejudicada em função do consumo de álcool e, com isso, haver
uma diminuição da eficácia na prevenção de Síndrome de
Wernicke Korsakoff. Na Inglaterra, após a suspensão do uso de
vitaminas do complexo B de alta potência (250mg de tiamina em
cada ampola) houve um aumento dos casos de “psicose alcoólica”
e os autores sugerem que o aumento da ocorrência desses
quadros seja secundária a suplementacao vitamínica em baixas
doses17. Síndrome de Marchiava Bignami Também
denominada “degeneração primária do corpo caloso”, é uma
doença mais comumente definida pelos aspectos patológicos que
pelos clínicos. A principal alteração é encontrada na porção
medial do corpo caloso onde, ao exame de olho nu, se vê uma
diminuição da densidade do tecido, com leve depressão
avermelhada ou amarelada, dependendo do tempo da lesão. Do
ponto de vista microscópico, observam-se, claramente, zonas de
desmielinização com abundância de macrófagos, embora não haja
alterações inflamatórias. Menos consistentes, lesões de
natureza similar são encontradas na porção central das
comissuras anterior e posterior e ponte. É uma doença rara
que afeta pessoas mais idosas e, com poucas exceções, todos os
pacientes acometidos são dependentes de álcool. Alguns
apresentam, no estágio terminal, quadros de estupor e coma, e
outros, sintomas compatíveis com quadro de intoxicação crônica
e síndrome de abstinência. Em alguns casos, descreveram-se
quadros de demência progressiva, com sintomas como disartria,
movimentos vagarosos e instáveis, incontinência esfincteriana
transitória, hemiparesia e afasia. O diagnóstico dessa
patologia raramente é feito durante a vida, mas, via de regra,
na necropsia, por meio de exame anátomo-patológico. A
ocorrência, em paciente dependente de álcool, de sintomas
semelhantes à síndrome do lobo frontal, à doença de Alzheimer
ou, ainda, de sintomas semelhantes a quadros de tumor na
região frontal, mas que remitam espontaneamente, sugere
síndrome de Marchiava Bignami, e exames de imagem auxiliarão
no diagnóstico. A etiologia e a patologia desse quadro não são
bem esclarecidas até o momento 20. Conclusão Apesar de,
acima, terem sido abordadas complicações graves da dependência
de álcool que surgem independentemente do nível de consumo do
álcool, todos os dependentes precisam e devem ter acesso a
tratamento em qualquer fase de sua doença bem como seus
familiares. O artigo expõe as bases para o reconhecimento
dessas complicações e propõe algumas intervenções para o
tratamento minimizando a morbidade e a mortalidade.
Existem intervenções eficazes e algumas intervenções
propostas, como o uso de tiamina na prevenção de Síndrome de
Wernicke Korsakoff ainda carecem de maiores pesquisas para
estabelecimento de dose, via de administração e tempo de uso.
Outras, no entanto, estão bem estabelecidas, como o uso de
benzodiazepínicos visando impedir a progressão da SAA para
quadros mais graves tais como o DT. Esse uso deve ser
instituído o mais precocemente possível em um paciente com
história de SAA grave no passado em que se propõe abstinência
ou quando este se encontra em abstinência há menos de três
dias e apresenta um quadro sintomatológico importante que
justifique o emprego dessa medicação. O envolvimento da
família no tratamento do paciente é fundamental, pois propicia
uma maior adesão do mesmo ao tratamento bem como melhor
qualidade de vida aos integrantes do núcleo familiar. Quando
não é possível o tratamento ambulatorial, ou quando a
gravidade do quadro se impõe, a hospitalização pode ser
necessária para assegurar a abstinência. Todas essas medidas
podem e devem ser implementadas e integradas nos sistemas de
saúde público e privado e, para que isso ocorra de maneira
apropriada, mais profissionais devem ser adequadamente
treinados para realizá-las.
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