Uso de álcool entre adolescentes - Flávio Pechansky, Cláudia Maciel Szobot e Sandra Scivoletto**
*Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas da UFRGS **
GREA - Grupo de Estudos em Alcoolismo, Hospital de Clínicas de
São Paulo
Introdução O uso de álcool entre
adolescentes é naturalmente um tema controverso no meio social
e acadêmico brasileiro. Ao mesmo tempo em que a lei brasileira
define como proibida a venda de bebidas alcoólicas para
menores de 18 anos (Lei nº 9.294, de 15 de julho de 1996), é
prática comum o consumo de álcool pelos jovens – seja no
ambiente domiciliar, seja em festividades, ou mesmo em
ambientes públicos. A sociedade como um todo adota atitudes
paradoxais frente ao tema: por um lado condena o abuso de
álcool pelos jovens, mas é tipicamente permissiva ao estímulo
do consumo por meio da propaganda. Pinsky e Silva (1999),
estudando comerciais de bebidas alcoólicas, demonstraram que a
freqüência destes, era em média maior do que a freqüência de
comerciais sobre outros produtos, como bebidas não alcoólicas,
medicamentos, ou cigarros. Mais ainda, dos cinco temas mais
freqüentemente encontrados nos comerciais, três deles (temas
como relaxamento, camaradagem e humor) eram diretamente
relacionáveis às expectativas dos jovens. Além disso, não
havia à época qualquer tipo de mensagem consistente quanto a
consumo moderado das bebidas anunciadas. Atualmente existe
um movimento na direção do consumo responsável de álcool, como
indica por exemplo o “website” da Companhia Brasileira de
Bebidas - AMBEV, com campanhas na mídia associando o consumo
de álcool com moderação ou com prevenção de acidentes, ou
mesmo de iniciativas do Conselho Nacional de
Auto-Regulamentação Publicitária – CONAR - quanto à
regulamentação de propaganda voltada para jovens. Em
resolução divulgada em outubro de 2003, o CONAR define uma
série de regras e parâmetros restritivos à propaganda de
bebidas alcoólicas visando a exclusão de imagens voltadas para
menores, vetando a utilização de pessoas de menos de 25 anos
nos comerciais, dentre outras. Mesmo assim, das mensagens que
o Código Brasileiro de Auto-Regulamentação Publicitária
resolve que deverão fazer parte obrigatória das cláusulas de
advertência nos comerciais, apenas uma é explicitamente
voltada a informar que o consumo não se destina a crianças ou
adolescentes (“ESTE PRODUTO É DESTINADO A ADULTOS”). As demais
fazem menção a restringir o abuso, não beber e dirigir, e
beber com moderação. No entanto, é sabida a desproporção entre
este esforço versus o gigantesco impacto da propaganda sobre o
consumo de bebidas alcoólicas entre os jovens. E, de certa
forma, esta desproporção é visível na comparação entre as
belas imagens produzidas na mídia, que ocupam a grande parte
de um comercial, versus a tarja governamental, sóbria e
obrigatória, informando sobre os danos causados pelo uso
abusivo daquela substância. No que compete ao controle do
consumo, estudos recentes realizados nos EUA confirmam a
impressão leiga de que a maioria dos estabelecimentos
comerciais vende bebidas alcoólicas para indivíduos menores de
21 anos, sem solicitação de verificação da idade (Toomey e
Wagenaar, 2002). Outro achado preocupante mencionado pelos
autores é o de que mesmo havendo maior controle sobre o
consumo de álcool dentro de ambientes com grande concentração
de jovens (escolas e universidades, por exemplo), mais da
metade dos estados americanos permite a entrega domiciliar de
bebidas alcoólicas vendidas por telefone, o que não é
diferente da realidade brasileira, favorecendo o menor
controle sobre o consumo de álcool por menores de idade.
Em artigo recente, Saffer (2002) ao discutir mitos
culturais e símbolos utilizados em propaganda sobre álcool,
conclui que a mídia efetivamente influencia o consumo. Para
uma mente em desenvolvimento, tipicamente sugestionável e
plástica como a de um adolescente, o paradoxo de posição da
sociedade e a falta de firmeza no cumprimento de leis são um
caldo de cultura ideal para a experimentação tanto de drogas
como de álcool, contribuindo para a precocidade de exposição
de jovens ao consumo abusivo. Este artigo tem como
finalidade descrever aspectos epidemiológicos, etiopatogênicos
e diagnósticos associados ao consumo de bebidas alcoólicas por
adolescentes, visando orientar o profissional não especialista
no manejo destas difíceis questões. Problemas relacionados
a diagnóstico e classificação Um dos primeiros obstáculos
relacionados ao tema do uso problemático de álcool entre
adolescentes é da própria definição do que é o uso normal. Os
sistemas classificatórios apresentam discordâncias e
necessidades de aprimoramento bastante comentadas na
literatura. De acordo com a American Academy of Pediatrics
(1996), haveria seis estágios no envolvimento do adolescente
com SPA: abstinência, uso experimental/recreacional (em geral
limitado a álcool), abuso inicial, abuso, dependência e
recuperação. Esta classificação é interessante, pois contempla
características da adolescência: a experimentação de SPA,
dentro de certos padrões, pode ser considerada uma conduta
normal da adolescência, onde o jovem percorre outras
experimentações, como a da sexualidade. Sabe-se, por exemplo,
que a maioria dos adolescentes que experimentam uma substância
de abuso não se tornará um usuário regular da mesma (Newcomb,
1995). Também, esta classificação permite o diagnóstico de
abuso inicial quando pequenos prejuízos começam a emergir,
como um pior desempenho escolar por estar sofrendo dos efeitos
posteriores a um abuso de álcool. A maioria dos
instrumentos para avaliação de uso de SPA deriva, entretanto,
do DSM-IV (APA, 1994). Por este sistema, os principais
diagnósticos seriam de abuso e de dependência. Para o
diagnóstico de abuso, o adolescente precisaria apresentar, ao
longo de um ano, um dentre quatro sintomas ancorados sobretudo
no uso recorrente da substância apesar de algum prejuízo
social, pessoal ou legal. Para o diagnóstico de
Dependência, o adolescente deveria apresentar, ao longo de um
ano, três dentre sete sintomas que não se sobrepõem aos
sintomas de abuso. O DSM-IV apresenta uma série de
vantagens, como a listagem de critérios operacionais claros. O
seu uso, porém, requer cautela por vários motivos. Não há
critérios para crianças e adolescentes distintos de critérios
para adultos, como já ocorre, por exemplo, para a distinção
entre Transtorno de Conduta e Personalidade Anti-Social.
Também há uma série de outras ressalvas, tanto para o abuso
quanto para a dependência (para uma revisão, ver Martin e
Winters, 1998). Ao menos dois dos sete sintomas de dependência
são de base predominantemente biológica (tolerância e
abstinência), mas a resposta física ao álcool difere de acordo
com a etapa do desenvolvimento. O que significa dizer que,
para uma doença de desenvolvimento lento como o alcoolismo,
seria improvável que estes elementos – em particular os
sintomas de abstinência - já se encontrassem evidentes com
poucos anos de uso na adolescência. Além do que,
clinicamente, há dados que sugerem que a evolução da
dependência de álcool em adolescentes não segue a transição de
abuso para dependência do DSM-IV, mas sim uma seqüência
composta por sintomas de ambos diagnósticos desde estágios
mais iniciais, talvez mais parecida ao que propõe a American
Academy of Pediatrics. Primeiramente, haveria três sintomas de
dependência (tolerância, beber mais tempo ou quantia maior do
que o desejado e muito tempo em torno de álcool) e dois de
abuso (prejuízos pessoais e sociais); em um segundo estágio,
haveria três sintomas de dependência (tentativas frustradas ou
desejos de diminuir ou interromper o consumo, escassez do
repertório e uso continuado apesar de problemas físicos ou
emocionais) e dois de abuso (uso em situações com risco físico
e problemas legais) e, por fim um terceiro estágio
caracterizado pelos sintomas físicos de abstinência (Martin et
al., 1996). Com base nestes dados, parece-nos fundamental que,
para avaliar o uso de álcool entre adolescentes - sobretudo no
intuito de diagnosticar alguma patologia - o profissional
tenha conhecimento sobre a adolescência e sobre as
particularidades da dependência química nesta etapa da vida.
Não há sustentação para simplesmente transpor o modelo de
adultos para esta faixa etária.
A situação do problema: prevalência de
experimentação, consumo regular, abuso e dependência de álcool
entre os adolescentes Os estudos epidemiológicos
sugerem que 19% dos adolescentes norte-americanos apresentam
abuso de álcool (Cohen et al., 1993). Os dados brasileiros são
mais escassos e indicam haver características regionais quanto
ao uso de álcool e outras SPA. Considerando-se o uso na vida,
de acordo com o I Levantamento Domiciliar sobre o Uso de
Drogas Psicotrópicas no Brasil (2001) a prevalência é de 48,3%
entre jovens de 12 a 17 anos em 107 grandes cidades
brasileiras. Neste estudo, ainda na análise das 107 cidades em
conjunto e para esta mesma faixa etária, a prevalência de
dependência de álcool foi 5,2%. Analisando-se os dados de
acordo com a região brasileira, encontramos a maior
prevalência de uso na vida de álcool na Região Sul (54,5%) e
maior prevalência de dependência de álcool nas Regiões Norte e
Nordeste (9,2 e 9,3%, respectivamente). Entretanto, de acordo
com a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e
Tecnologia (UNESCO) (2002), a cidade de Porto Alegre, Rio
Grande do Sul, lidera o ranking dos usuários regulares de SPA
lícitas e ilícitas, com 14,4% de usuários de álcool. Apesar da
relativa escassez de dados nacionais, estes estão de acordo
com a literatura internacional no sentido da dependência
química ser o problema de saúde mental mais prevalente entre
adolescentes, com o álcool em primeiro lugar. Estes dados
tornam-se mais alarmantes à medida que consideramos o forte
impacto negativo do uso regular de álcool na adolescência,
como será detalhado adiante.
Fatores de risco para o uso de álcool em
adolescentes O álcool é uma das substâncias
psicoativas mais precocemente consumidas pelos jovens.
Diferentes estudos nacionais e estrangeiros sistematicamente
confirmam a impressão genérica de que, se o álcool é
facilmente obtenível e fartamente propagandeado, isto se
reflete em seu consumo precoce e disseminado. Em um
levantamento realizado com uma amostra de adolescentes
representativa da população de Porto Alegre, Pechansky e
Barros (1995) coletaram dados de 950 jovens entre 10 e 18
anos. Os achados indicavam ser freqüente (71%) a
experimentação das bebidas alcoólicas mais comuns na faixa
etária estudada, chegando a quase 100% na idade de 18 anos. Um
dos achados importantes do estudo foi o de que havia mudanças
na forma, local de consumo e volume de etanol ingerido de
acordo com a idade dos entrevistados, assim como com relação
ao gênero: os meninos começavam a beber fora de casa e com
amigos mais precocemente, enquanto as meninas eram mais
conservadoras, mantendo o hábito de consumo familiar e
doméstico por mais tempo. Genericamente, há informações
consistentes sobre elementos que influenciam o início ou
mantém o uso de substâncias por parte dos adolescentes. Alguns
deles se encontram abaixo: • A experimentação inicial se dá
pelo fato do adolescente ter amigos que usam drogas, gerando
uma pressão de grupo na direção do uso. Ao mesmo tempo, Brook
e Brook (1996) ressaltam que valores, calor humano e
performance escolar dos pares também podem ser um importante
elemento na prevenção do uso de drogas. Os autores também
descrevem o efeito de “loops”, ou seja, a potencialidade de
que retro-alimentações possam acontecer entre uso de drogas
pelos pares e o uso pessoal de drogas: adolescentes que estão
usando drogas têm mais chance de estarem associados a pares
que usam drogas, e essa associação, por sua vez, aumenta a
chance de que eles mantenham ou incrementem o seu envolvimento
com drogas. • Elementos relacionados à estrutura de vida do
adolescente desencadeiam um papel fundamental na gênese da
dependência de drogas. De Micheli e Formigoni (2001),
estudando uma amostra de 213 adolescentes brasileiros
classificados em três grupos de intensidade crescente de
abuso/dependência, identificaram que a classe social
média-baixa aumentava em 3,5 vezes a probabilidade destes
indivíduos se tornarem dependentes de drogas, e a defasagem
escolar de no mínimo um ano aumentava em 4,4 vezes a chance
deste desenvolver uma dependência grave. No que compete à
situação familiar, a presença somente da mãe no domicílio do
adolescente estava associada a um aumento de 22 vezes na
chance deste ser dependente de drogas, quando comparado com
adolescentes que viviam com ambos os pais. Corroborando estes
achados, todo o corolário de trauma familiar, separação,
brigas e agressões estava francamente associado ao grupo de
adolescentes com maior intensidade de dependência. O papel dos
pais e do ambiente familiar é marcante no desenvolvimento do
adolescente e, conseqüentemente, na sua relação com álcool e
drogas. Falta de suporte parental, uso de drogas pelos
próprios pais, atitudes permissivas dos pais perante o uso de
drogas, incapacidade de controle dos filhos pelos pais e
indisciplina e uso de drogas pelos irmãos (Brook e Brook,
1996) são todos fatores predisponentes à maior iniciação ou
continuação de uso de drogas por parte dos
adolescentes. Outro ponto de estudo na etiopatogenia do
abuso de substâncias é o impacto de uma predisposição
co-mórbida psiquiátrica no desenvolvimento do uso de drogas
por adolescentes. Dentre os dependentes de drogas, estima-se
que entre 30 a 80% tenham alguma outra comorbidade, sendo as
mais freqüentes o Transtorno de Conduta, Depressão, Déficit de
Atenção com Hiperatividade e Ansiedade (Bukstein et al.,
1992). Segundo Brook, Whiteman, Gordon e Cohen (1986), os mais
potentes preditores de uso freqüente de drogas são as
variáveis relacionadas a um estilo de vida não convencional,
dentre elas a busca de sensações, rebeldia, tolerância a
comportamentos desviantes e baixa escolaridade. Impacto do
uso de álcool em adolescentes O uso problemático de álcool
por adolescentes está associado a uma série de prejuízos no
desenvolvimento da própria adolescência e em seus resultados
posteriores, como será detalhado. Os prejuízos decorrentes do
uso de álcool em um adolescente são diferentes dos prejuízos
evidenciados em um adulto, seja por especificidades
existenciais desta etapa da vida, seja por questões
neuroquímicas deste momento do amadurecimento cerebral. Alguns
riscos são mais freqüentes nesta etapa do desenvolvimento,
pois expressam características próprias desta etapa, como o
desafio a regras e a onipotência. O adolescente acredita estar
magicamente protegido de acidentes, por exemplo, e também se
sente mais autônomo na transgressão, envolvendo-se assim em
situações de maior risco, por muitas vezes com conseqüências
mais graves. Abaixo, alguns prejuízos associados à intoxicação
e ao beber regularmente nesta fase: • O uso de álcool em
menores de idade está mais associado à morte do que todas as
substâncias psicoativas ilícitas em conjunto. Sabe-se, por
exemplo, que os acidentes automobilísticos são a principal
causa de morte entre jovens dos 16-20 anos (National Highway
Traffic Safety Administration, 2001). Estima-se que 18% dos
adolescentes norte-americanos com idade entre 16 e 20 anos
dirijam alcoolizados, dado de extrema importância ao sabermos
que os comportamentos de risco, como os que resultam em
acidentes automobilísticos, respondem por 29% das mortes de
adolescentes. Este comportamento é mais característico de
adolescentes do que adultos, pois a prevalência de acidentes
automobilísticos fatais associados com álcool, entre jovens de
16-20 anos, é mais do que o dobro da prevalência encontrada
nos maiores de 21 anos (Yi et al., 2001). Em recente estudo
realizado na fronteira EUA/México, o consumo de bebidas
alcoólicas entre adolescentes mostrou-se associado com dirigir
alcoolizado (OR=5,39) e com pegar carona com motorista
alcoolizado (OR=3,12) (McKinnon et al., 2004). • Estar
alcoolizado aumenta a chance de violência sexual, tanto para o
agressor quando para a vítima (Abbey, 2002). Da mesma forma,
estando intoxicado, o adolescente envolve-se mais em
atividades sexuais sem proteção, com maior exposição às
doenças sexualmente transmissíveis, como ao vírus HIV e maior
exposição à gravidez (Huizinga et al., 1993). A ligação entre
sexo desprotegido e uso de álcool parece ser afetada pela
quantidade de álcool consumida, interferindo na elaboração do
juízo crítico (Sen, 2002). Dados nacionais apontam para uma
associação entre uso de álcool e maconha e comportamentos
sexuais de risco, como início precoce de atividade sexual, não
uso de preservativos, pagamento por sexo e prostituição
(Scivoletto, 1999). • O consumo de álcool na adolescência
também está associado a uma série de prejuízos acadêmicos
(McKinnon et al., 2004). Os prejuízos acadêmicos podem
decorrer do déficit de memória: adolescentes com dependência
de álcool apresentam mais dificuldade em recordar palavras e
desenhos geométricos simples após um intervalo de 10 minutos,
em comparação a adolescentes sem dependência alcoólica (Brown
et al., 2000). Sabendo-se que a memóre é função fundamental no
processo de aprendizagem, e que esta se altera com o consumo
de álcool, é natural que este também comprometa o processo de
aprendizagem. A queda no rendimento escolar, por sua vez, pode
diminuir a auto-estima do jovem, o que representa um conhecido
fator de risco para maior envolvimento com experimentação,
consumo e abuso de substâncias psicoativas. Assim, a
conseqüência do uso abusivo de álcool para o adolescente
poderia levá-lo a aumentar o consumo em uma cadeia de
retroalimentação, ao invés de motivá-lo a diminuir ou
interromper o uso. • A percepção que o adolescente tem
sobre os problemas decorrentes do consumo de álcool não
acompanha, necessariamente, a hierarquia dos prejuízos
considerados mais graves. Sabe-se, por exemplo, que 50% dos
jovens que bebem regularmente apontam como a principal
conseqüência negativa o fato de terem se comportado de uma
forma imprópria durante ou após o consumo. Da mesma forma, 33%
destes adolescentes queixam-se de prejuízo no pensamento.
Apenas 20% descrevem o ato de dirigir alcoolizado como um dos
problemas decorrentes, em contraste com o fato dos acidentes
automobilísticos com motorista alcoolizado, serem a principal
causa de mortes nesta faixa etária (SAMHSA, 1998). Além disso,
outros “freios sociais”presentes entre os adultos (problemas
familiares, perda de emprego, prejuízo financeiro), e que
muitas vezes são vistos como alertas para diminuição do
consumo estão ausentes entre os adolescentes. Esta seria uma
possível explicação para jovens evoluírem mais rapidamente do
abuso para a dependência, quando comparados com os adultos.
Os prejuízos associados ao uso de álcool estendem-se ao
longo da vida. Os seus efeitos repercutem na neuroquímica
cerebral, em pior ajustamento social e no retardo do
desenvolvimento de suas habilidades, já que um adolescente
ainda está se estruturando em termos biológicos, sociais,
pessoais e emocionais. Abaixo, alguns dos efeitos do uso de
álcool na adolescência ao longo da vida: • O uso de álcool
na adolescência expõe o indivíduo a um maior risco de
dependência química na idade adulta, sendo um dos principais
preditores de uso de álcool nesta etapa da vida (Grant, 1998).
A manutenção do consumo em idade adulta pode ocorrer por
diferentes fatores. O uso de álcool na adolescência pode ser
apenas um marcador do uso de álcool na idade adulta, ou então
pode interferir na neuroquímica cerebral, ainda em
desenvolvimento na adolescência. • O uso de álcool em
adolescentes está associado a uma série de prejuízos
neuropsicológicos, como na memória (Brown et al, 2000). Outros
danos cerebrais incluem modificações no sistema dopaminérgico,
como nas vias do córtex pré-frontal e do sistema límbico.
Alterações nestes sistemas acarretam efeitos significativos em
termos comportamentais e emocionais em adolescentes (Spear,
2000). É importante destacar que durante a adolescência, o
córtex pré-frontal ainda está em desenvolvimento. Como ele
pode ser afetado pelo uso de álcool, uma série de habilidades
que o adolescente necessita desenvolver e que são mediadas por
este circuito, como o aprendizado de regras e tarefas
focalizadas, ficará prejudicada. O hipocampo, associado à
memória e ao aprendizado, é afetado pelo uso de álcool em
adolescentes, apresentando-se com menor volume em usuários de
álcool do que em controles, e tendo sua característica
funcional afetada pela idade de início do uso de álcool e pela
duração do transtorno. Estes dados são importantes, pois
demonstram haver um efeito cerebral conseqüente ao consumo de
álcool em adolescentes; os efeitos ocorrem em áreas cerebrais
ainda em desenvolvimento e associadas a habilidades
cognitivo-comportamentais que deveriam iniciar ou se firmar na
adolescência. O adolescente ainda está construindo a sua
identidade. Mesmo sem um diagnóstico de abuso ou dependência
de álcool, pode se prejudicar com o seu consumo, à medida que
se habitua a passar por uma série de situações apenas sob
efeito de álcool. Vários adolescentes costumam, por exemplo
associar lazer com consumo de álcool, ou só conseguem tomar
iniciativas em experiências afetivas e sexuais se bebem.
Assim, aprendem a desenvolver habilidades com o uso de álcool
e, quando este não se encontra disponível, sentem-se incapazes
de desempenhar estas atividades, evidenciando uma outra forma
de dependência.
Conclusão: Como procurou-se demonstrar
ao longo deste artigo, o consumo de álcool por adolescentes
ainda tem elementos controversos para sua compreensão. Apesar
de trazer claras conseqüências orgânicas, comportamentais e na
estrutura de desenvolvimento da personalidade do jovem, o uso
de álcool nesta faixa etária paradoxalmente ainda é combatido
e valorizado, dependendo do ângulo em que o fenômeno seja
observado: para a mídia e para os pares, o consumo de álcool é
favorecido. Para a lei e para os programas de saúde pública,
ele é combatido. Neste embate entre forças freqüentemente
desiguais, encontra-se um indivíduo com a personalidade em
formação, como que navegando entre marés com correntezas
opostas. Entretanto, independentemente das forças em questão,
um ponto é inquestionável no que compete ao consumo de álcool
por adolescentes: quanto mais precoce o início de uso, maior o
risco de surgirem conseqüências graves, e os profissionais que
lidam com este tema deve estar atentos a esta questão. Para
tanto, devem conhecer as particularidades da adolescência e da
dependência química nesta faixa etária.
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