26 - Estratégias Educacionais e de Persuasão

Estas estratégias estão entre as mais populares abordagens de prevenção de problemas relacionados ao consumo de álcool. No entanto, diferem das abordagens anteriores devido à falta de efetividade. Além da baixa efetividade, são abordagens em geral muito caras, tornando seu custo-benefício extremamente desvantajoso quando comparado às outras abordagens descritas aqui4. Geralmente possuem os seguintes objetivos:

• Difundir conhecimento sobre o álcool e os riscos relacionados ao seu consumo.
• Mudar atitudes com relação ao beber a fim de reduzir os riscos envolvidos.
• Mudar comportamentos relacionados ao beber.
• Diminuir a freqüência ou a gravidade dos problemas relacionados ao álcool.
• Obter mais recursos e apoio para as políticas do álcool.
Podem fazer uso das seguintes abordagens:
• Iniciativas de mídia:
o Meios de comunicação de massa e propaganda educativa
o Mensagens de advertência nos rótulos
o Diretrizes para beber com segurança
• Programas baseados nas escolas

Embora possua um forte apelo popular, a propaganda educativa nunca é tão bem produzida, nem possui os mesmos recursos, nem a mesma freqüência nos meios de comunicação do que a propaganda da indústria do álcool. Pesa ainda a favor desta ser muito mais sedutora e persuasiva do que qualquer contra-propaganda conseguiria ser. Que mensagem contrária ao consumo do álcool poderia ter tanto apelo quanto a propaganda de cerveja protagonizada por um dos maiores ídolos do futebol em nosso país? Como contrabalançar o efeito de mensagens publicitárias da indústria do álcool protagonizadas por grandes nomes da TV, da MPB, ou dos esportes? Difícil. Mesmo que houvesse recursos para a produção de uma contra-propaganda à altura da publicidade da indústria, seu custo seria tão elevado que deixaria de ser compensador. Quando apresenta alguma efetividade, é como parte integrante de um conjunto mais amplo de políticas. Algo importante de se afirmar, proibir a publicidade do álcool custa bem menos e é bem mais eficaz que qualquer medida de contra-propaganda4.

O uso de advertências nos rótulos, embora apresente um significativo recall (pesquisas de recall avaliam com que facilidade algo é evocado ou recordado pelo entrevistado) nas pesquisas, não é eficaz em mudar comportamentos relacionados ao consumo de álcool, e tampouco é efetivo em prevenir o consumo entre bebedores pesados. Alguns estudos mostraram que adolescentes de 17 anos de idade relatavam conhecimento dos rótulos de advertência nos EUA, embora esse conhecimento não resultasse em mudanças nas crenças acerca do consumo de álcool. É provável que o impacto das advertências nos rótulos das bebidas alcoólicas possa ser incrementado combinando tal estratégia com outras mudanças na política do álcool4.

Após pesquisas epidemiológicas sobre o efeito do consumo moderado de álcool sobre problemas cardiovasculares, a indústria lançou mão de uma estratégia onde provê o público com material promocional e informativo sobre os benefícios do uso moderado do álcool. Os efeitos dessa estratégia ainda não são conclusivos, no que diz respeito à possibilidade desse tipo de mensagem diminuir ou mesmo aumentar o consumo de álcool4.

O objetivo dos programas escolares é modificar as crenças, atitudes e comportamentos dos adolescentes em relação ao álcool. Embora aumentem o conhecimento, não modificam o consumo; além disso, fornecer informação sobre os perigos de diferentes substâncias psicoativas pode despertar a curiosidade e estimular o consumo entre aqueles que são buscadores de estímulos. Abordagens afetivas direcionadas à clarificação de valores, auto-estima, habilidades sociais e abordagens “alternativas” que provêem atividades sem relação com álcool (como esportes) são igualmente ineficazes em alcançar o objetivo proposto4. Programas de influência social visam a aumentar as habilidades de resistir à pressão social relacionada ao consumo do álcool; mas recentemente se descobriu que o uso de álcool por adolescentes deve-se menos a formas de pressão direta do que a influências sociais bem mais sutis; também foi sugerido que tal abordagem (treinamento em habilidades para resistir à pressão social) pode ser contraproducente, na medida em que leva o adolescente a concluir que o uso de álcool é bastante prevalente e aprovado pelos seus colegas. Estabeleceram-se então programas de educação normativa visando a corrigir a tendência do adolescente de superestimar o número de seus colegas que bebem e que aprovam o uso de álcool4.

Muitos programas escolares atuais combinam o treinamento de resistência à pressão com a educação normativa; os resultados ainda são ambíguos. Quando positivos, os resultados produzidos têm curta duração, a não ser que sejam reforçados periodicamente; alguns subgrupos de adolescentes tendem a ser mais responsivos que outros. Por exemplo, jovens com pouca experiência no comportamento de beber mostram-se mais responsivos aos programas de influência social. Já os programas de educação normativa apresentam melhores resultados em jovens com comportamento rebelde. Programas escolares mais abrangentes, que incluem abordagem educacional tanto individual quanto familiar ou comunitária – alguns programas avaliados chegaram a incluir educação parental, treinamento de lideres comunitários e os meios de comunicação de massa – apresentaram algum resultado, porém logo dissipado assim que o programa acabou4. A literatura especializada21,22 recomenda algumas orientações gerais para o desenvolvimento de programas preventivos escolares:

- Os programas de prevenção devem procurar atingir várias áreas da vida do jovem, denominadas domínios da vida que são: individual, grupal, escolar, familiar, comunitário e social. Pesquisas de prevenção recentes sugerem que, quanto mais domínios da vida são atingidos pelo programa, mais efetivo ele se torna.
- O desenvolvimento do programa deve seguir uma seqüência lógica e previsível do uso de substancias: álcool – tabaco – maconha – depressivos – estimulantes – alucinógenos – outros.
- O programa deve contar com diferentes modalidades de prevenção: universal, seletiva e indicada.
- Estudos mostram que o período mais efetivo para a prevenção compreende a faixa etária dos 10 aos 15 anos de idade.
- Programas baseados em métodos interativos são muito mais efetivos do que os baseados em formatos didáticos.
- Agentes multiplicadores jovens podem fazer parte do programa preventivo desde que estes recebam orientação constante da equipe responsável.
- Programas escolares que possuem intervenções direcionadas aos pais e à comunidade apresentam melhores resultados.

Os fatos apresentados nos permitem as seguintes conclusões a respeito das abordagens baseadas na escola:

• Qualquer que seja o programa educacional adotado, constitui uma alternativa bastante cara e pouco efetiva.
• Seu impacto é pequeno e pouco persistente.
• A educação por si só é fraca demais enquanto estratégia contrária a poderosos fatores de risco que permeiam o ambiente social.
• A hegemonia e popularidade que tais modelos desfrutam não se devem à demonstração de seu impacto ou potencial de reduzir danos relacionados ao consumo de álcool.
• Devemos questionar a validade do emprego de recursos financeiros em iniciativas isoladas e nos perguntar por que recursos valiosos permanecem sendo gastos com iniciativas de potencial tão limitado.
• Recomenda-se o uso de abordagens escolares como parte integrante de um conjunto de políticas de alocação e de regulação. Dessa forma, as abordagens educacionais podem contribuir para a sustentação das outras medidas – nos vários domínios de vida do jovem –, e estas podem fornecer as mudanças ambientais necessárias para a efetividade das abordagens baseadas na escola.