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- Síntese
As políticas públicas para o álcool devem corresponder ao
entendimento de que o álcool está longe de ser um produto
qualquer. Os impostos e taxas sobre as bebidas constituem
um instrumento poderoso de política do álcool, na medida em
que podem ser usados tanto para gerar receita como para os
reduzir danos causados pelo álcool. Funcionam ainda como uma
compensação social pelos danos causados. É possível
controlar a disponibilidade do álcool de diversas formas: dias
e horários de funcionamento, controle da densidade de pontos
de venda, leis de zoneamento urbano, idade mínima para a
compra de bebidas, etc. O controle da disponibilidade do
álcool é uma estratégia de baixo custo e de alta efetividade
para reduzir o consumo e os problemas relacionados A
implantação de um sistema de licenças para a venda de bebidas
constitui uma das estratégias mais amplamente aceitas
internacionalmente e recomendadas por especialistas; sua
implantação e fiscalização não é dispendiosa, sua efetividade
é alta, e permite obter um controle efetivo sobre a venda de
bebidas alcoólicas. O consumo do álcool relaciona-se à
metade dos acidentes automobilísticos fatais, e existem hoje
medidas efetivas para reduzir problemas nessa área. A
exigência de níveis mais baixos de concentração alcoólica no
sangue relaciona-se a menores índices de acidentes fatais e
não fatais no trânsito. Para que as estratégias no trânsito
sejam efetivas, tornam-se necessários aumentar o grau de
certeza de punição, e a velocidade com que a punição é
aplicada. A educação por si só é fraca demais enquanto
estratégia contrária a fatores de risco que permeiam o
ambiente social e o contexto onde se bebe.
Em um país como o nosso, em que a regulação do álcool é
próxima a zero, e em um momento onde aumenta o nível de
conscientização popular devido ao incremento dos danos
causados pelo álcool, está configurada a oportunidade para uma
ação política efetiva e transparente. No palco da política do
álcool há diversos atores em cena:
• Os interesses comerciais: quando grandes
somas em dinheiro são investidas no marketing, a indústria
da publicidade, os meios de comunicação de massa, e parte da
indústria do esporte, tornam-se então parte interessada na
política do álcool. Isso ocorre especialmente quando surgem
propostas de restrição à propaganda. É necessário ficar
atento às “iniciativas de prevenção” patrocinadas pela
indústria ou por organizações financiadas por ela – tais
iniciativas visam mais à manutenção do status quo do que ao
bem comum. • Os meios de comunicação de massa: podem ter
uma grande influência no debate político em nível nacional e
local; podem moldar o debate escolhendo o tema, definindo o
problema e sugerindo soluções. Podem, portanto, ser usados
para alavancar diversas políticas do álcool, evitando assim
o custo da aquisição de espaço na mídia para a
contra-propaganda. • Organizações não-governamentais:
podem desempenhar um papel muito relevante. Um bom exemplo é
a associação de mães nos EUA, Mothers Against Drunk
Driving. • Campanhas públicas: podem ocupar um lugar
valioso ao despertar atenção para os problemas causados pelo
álcool, mas nunca são suficientes. Campanhas como “Semana de
Combate ao Álcool” podem proporcionar grande satisfação
pessoal aos envolvidos, mas sem causar impacto nos problemas
relacionados ao consumo de álcool. Programas assim geram
muito entusiasmo e reconhecimento público, e podem causar a
aparência de que algo está sendo feito, sem no entanto
oferecer intervenções substanciais e efetivas. •
Governos: políticas do álcool podem ser desenvolvidas em
implementadas em muitos níveis diferentes de governo, do
nacional ao local. Este fato permite uma descentralização no
processo de tomada de decisões políticas, facilitando muitas
vezes sua implementação. • Comunidades: muitas
abordagens políticas de efetividade comprovada em nível
nacional ou regional podem também ser executadas no nível da
comunidade. A abordagem comunitária apresenta uma série de
vantagens: é a comunidade que deve lidar não só com as
mortes e traumas decorrentes de acidentes automobilísticos
relacionados ao consumo de álcool, mas também com o custo
social de tais problemas e com o processo de recuperação e
reabilitação. Tais problemas muitas vezes geram histórias e
experiências pessoais que motivam determinada ação; os pais
que perdem seus filhos em acidentes podem constituir um
grupo que exerça pressão contra a venda de bebidas a
menores, por exemplo.
Idealmente, o processo político forma um ciclo, começando
com uma avaliação sistemática dos problemas relacionados ao
álcool, seguida pela implementação de políticas de
intervenções, e terminando com uma avaliação objetiva dos
efeitos destas. Mas geralmente o processo político não é tão
claro assim, sendo contaminado por interesses, valores e
ideologias conflitantes. O álcool, além de ser um produto que,
como outro qualquer, produz trocas econômicas, também é um
produto que requer extraordinárias políticas públicas na forma
de regulação, taxação e serviços destinados aos danos causados
pelo seu consumo.
O processo de criação da política do álcool deve ser o mais
transparente possível, e corresponder, da melhor forma, às
necessidades dos cidadãos que são os consumidores finais dessa
política. Muitas das ações no jogo da política do álcool
ocorrem nos bastidores, subordinadas a considerações políticas
ou interesses velados. Sem a devida informação científica, e
sem o necessário monitoramento dos seus resultados, a política
do álcool não se qualifica nem como se baseando em evidências,
nem com a necessária efetividade. Torna-se imperativo
assegurar que a política do álcool sirva, acima de tudo, ao
bem comum.
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