Antes mesmo de ser oficializada no país, a ONG criada por
uma das maiores indústrias de cerveja do mundo gera um intenso
debate no meio científico.
Está marcado para julho o lançamento do Centro de
Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), da AmBev (dona das
marcas Skol, Brahma e Antarctica). A idéia é que o Cisa oferte
um banco de dados sobre bebidas alcoólicas e saúde.
Desde março, no entanto, quando começou a circular a
notícia de que um renomado especialista em álcool do Hospital
das Clínicas de São Paulo, o psiquiatra Arthur Guerra de
Andrade, 49, assumiria a entidade, a discussão não pára.
É possível acreditar em dados reunidos com o patrocínio da
indústria do álcool? Mas não é plausível que o produtor de uma
mercadoria que pode ser nociva assuma sua responsabilidade
social?
São questões como essas que correm no meio de profissionais
que trabalham com álcool.
As críticas emanam principalmente da Abead (Associação
Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas), mas mesmo
alguns especialistas historicamente ligados à redução de
danos, que defendem medidas menos restritivas ao álcool,
criticam o projeto.
"O objetivo da indústria é aumentar o consumo, o que
viabilizará o aumento de seus lucros. Portanto, objetivos
opostos e irreconciliáveis", diz mensagem da diretoria e do
conselho consultivo da Abead, divulgada no seu site oficial,
que veta a parceria entre seus membros e a indústria.
Em março a associação decidiu "sugerir" que Andrade pedisse
o afastamento da presidência da comissão científica do 16º
congresso da entidade e licença do conselho consultivo --o que
foi atendido pelo psiquiatra.
"Não é possível ser fiel a dois deuses", afirma Ronaldo
Laranjeira, da Universidade Federal de São Paulo, um dos
conselheiros. "Se a indústria quisesse melhorar os dados, que
desse o dinheiro à Fapesp [agência de fomento do governo
paulista]."
Manipulação
O que assombra alguns dos críticos é o risco de
manipulação. O fantasma é o histórico desastroso de associação
entre a indústria do cigarro e cientistas, que na década de 90
produziu falsos artigos científicos gerando divulgações
mentirosas sobre não haver risco no fumo passivo.
"Quando os objetivos são os dados científicos, o que a
gente vê é que manipulam", afirma Ana Glória Melcop, da Rede
Brasileira de Redução de Danos. Por isso, opina, é melhor a
associação para ações concretas, como atividades que melhorem
a segurança no tráfego, por exemplo.
"Há um óbvio conflito de interesse. Esses centros acabam
virando instrumentos de marketing. É muita ingenuidade
acreditar que a indústria dará dinheiro para mostrar os
desastres que ela mesma produz", opina Martin Raw, editor da
revista inglesa "Addiction" por sete anos.
Tolerância
No centro do debate, Andrade pede tolerância, quer que os
críticos esperem os resultados antes de falarem.
Fundador há 23 anos do Grea (Grupo Interdisciplinar de
Estudos de Álcool e Drogas) do Hospital das Clínicas e membro
do conselho da Comissão Interamericana para Controle do Abuso
de Drogas, Andrade diz que a idéia do Cisa foi sua, não da
AmBev. Afirma que procurou, sem sucesso, outros
patrocinadores, públicos e privados.
O Grea já havia recebido auxílio de US$ 35 mil da
indústria, via Associação Brasileira de Bebidas (que reúne o
setor de destilados, principalmente), para uma reforma
realizada no setor em 1997.
"Não adianta ficar brigando. É melhor uma parceria. O
governo não tem dinheiro para ajudar. Também tinha
resistência. Mas hoje o setor está mais responsável, vide [as
campanhas] contra beber e dirigir", diz Andrade sobre a
indústria de bebidas.
"Receber dinheiro da indústria de remédios pode?", continua
o médico, provocando seus críticos. Eles dizem que pode, pois
o remédio visa o bem do paciente.
O psiquiatra afirma estar contornando as resistências que
encontrou à parceria, o que ocorreu até dentro do próprio Grea
--pesquisadores do grupo dizem temer que o prestígio da
instituição vá "para o ralo". Andrade tentou conversar com
vários especialistas, mas poucos aceitaram o debate.
"O álcool faz parte da vida e cabe às grandes indústrias
ter responsabilidade", afirma Júlia Maria D'Andrea Greve,
livre-docente do departamento de ortopedia e traumatologia da
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP),
que aceitou convite do médico para integrar o conselho do
Cisa.
Para Marco Segre, da Comissão de Bioética do HC, o lado bom
da parceria é a possibilidade de benefício à comunidade, de
"convergência de interesses", não apenas de conflito. "Mas
devemos acompanhar para ver no que dá."
Andrade destaca que não é objetivo fazer pesquisa. Por
segurança, registrou um contrato em que garante a
independência para divulgar qualquer resultado, sejam os
reunidos ou produzidos pela ONG. "Perguntei à AmBev: vocês
bancam a verdade? Até agora toparam."
AmBev não revela valor de patrocínio
A AmBev diz que está impedida pela lei de fornecer
informações sobre investimentos na ONG, caso contrário pode
ser acusada de municiar pessoas com informações
privilegiadas.
O psiquiatra Arthur Guerra de Andrade também não quis falar
de rendimentos, em razão da decisão da empresa. Segundo ele,
não é nada diferente da "remuneração normal" de um cargo como
o que assumiu.
Em nota, a companhia diz que, em janeiro de 2003,
juntamente com as dez maiores cervejarias do mundo, a AmBev
foi convidada pela Organização Mundial da Saúde a apresentar
propostas e ouvir recomendações sobre o consumo de bebidas por
menores e os riscos de beber e dirigir.
"Ao tomar conhecimento das ações desenvolvidas pelos
maiores fabricantes e embasada em pesquisas científicas que
mostram resultados significativos, a empresa entendeu que
poderia contribuir com a sociedade e intensificou as ações de
consumo responsável."
Segundo a AmBev, "o plano é que o Cisa conte com o apoio de
outras empresas e instituições para que possa continuar o
trabalho".
Por fim, a companhia diz que "entende que está cumprindo o
papel de empresa cidadã ao contribuir com o amplo debate e o
esforço para mitigar efeitos danosos que o consumo exagerado
do álcool pode provocar".
(FABIANE LEITE e MARIO CESAR CARVALHO, Folha de S.Paulo -
03/05/2004)