Álcool já vicia adolescentes de 12 anos

Os jovens estão bebendo mais cedo. Segundo pesquisa de setembro de 2003 feita pela Aliança Cidadã Pelo Controle de Álcool, entidade nacional que reúne mais de 40 especialistas em dependência química, 65% dos alunos de ensino fundamental e médio — de 7 a 17 anos — admitem consumir bebidas alcoólicas, e pelo menos metade deles a experimentou pela primeira vez entre 10 e 12 anos de idade. Embora não se possa estimar o índice de futuros dependentes entre estes usuários, o número é preocupante, porque o álcool pode abrir caminho para drogas ilícitas, como maconha, cocaína e crack.
“Antes, a gente aprendia na faculdade de medicina que as pessoas começavam a beber aos 18 anos e os problemas decorrentes disso apareciam em torno dos 40 anos. Mas hoje tudo mudou. Desde pequenos os jovens já apresentam alterações de fígado”, diz o psiquiatra Sérgio Nicastre, coordenador do Programa Álcool e Drogas do Hospital Albert Einstein, que atende, em média, cerca de 150 pessoas de 13 a 80 anos por mês. “O alcoolismo não tem cura. A pessoa se trata, mas pode ter recaídas”, alerta.

Internações

Levantamento feito pelo DIÁRIO em sete conceituadas clínicas de São Paulo que tratam de dependentes químicos mostra que, nos últimos cinco anos, aumentou o número de internações de jovens. A maioria procura ajuda por causa do uso de entorpecente, mas quase todos começaram pelo álcool. Segundo a psiquiatra Elizabeth Vieira Fialho, da Clínica Maia, o número de internações de adolescentes já representa 50% dos atendimentos do local.
“O álcool demora mais tempo para dar sinais de dependência. Por isso, quando o adolescente procura tratamento, é porque o consumo de bebida alcoólica já está associado ao de outras drogas”, diz a psiquiatra Sandra Scivoletto, coordenadora do Grupo de Estudos de Álcool e Drogas na Infância e na Adolescência (Grea), da USP. Segundo ela, 80% dos jovens que começam a beber cedo apresentam algum tipo de doença psiquiátrica, como depressão ou ansiedade.
Na opinião do médico Ronaldo Laranjeira, psiquiatra e professor de Universidade Federal de São Paulo, há três fatores que estimulam o consumo de álcool entre os adolescentes: a propaganda, o baixo preço da bebida e a falta de controle social. “Qualquer criança pode entrar em um supermercado e encher o carrinho de cerveja”, comenta.
Segundo Laranjeira, para vir a se tornar dependente é necessário o consumo médio diário de quatro a cinco latas de cerveja. “Mas o que mais se vê é um índice de baixa freqüência de consumo semanal, porém em quantidades excessivas. As conseqüências disso são os acidentes de trânsito e as doenças estomacais precoces”, alerta o médico.
O médico Élson da Silva Lima, do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, lembra que, na maior parte das vezes, os jovens encontram estímulos para beber vendo o comportamento dos pais. “A sociedade precisa mudar a cultura de que beber é algo normal. A legislação proíbe a venda de bebidas alcoólicas a menores, mas todos encaram isso como coisa que não cabe ao Governo fiscalizar”, diz. Lima diz que não adianta os pais proibirem os filhos de beber. O ideal é mostrar os riscos e ensiná-los a ter moderação.

Entidade quer proibir propaganda, e Conar reage

A Aliança Cidadã pelo Controle do Álcool, entidade que reúne especialistas em dependência química de todo o país, está lançando um abaixo-assinado para enviar ao Congresso pedindo a proibição da propaganda de bebidas alcoólicas na mídia. O plano é recolher 1 milhão de assinaturas.
No entanto, segundo o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar), a medida fere o direito de liberdade de expressão garantido na Constituição. “Todos sabem que queijo amarelo tem maior índice de gordura e que gordura faz mal, mas não é por isso que vão proibir a propaganda dele”, compara Ednei Narchi, diretor-executivo do órgão. “Para o Conar, todos os produtos regulamentados, que podem ser fabricados, vendidos e consumidos, merecem propaganda”, acrescenta.
Narchi afirma que o Conar sempre regulamentou as peças publicitárias sobre o assunto e, a partir de setembro do ano passado, intensificou o controle. Desde então, está proibido, antes das 21h30, qualquer tipo de propaganda de “bebidas quentes”, como uísque, vodca, rum e cachaça. Pode apenas a publicidade das “bebidas de mesa” — cervejas e vinhos.
Segundo Narchi, as bebidas “ice” também têm horário livre de publicidade, desde que seu nome não o associe às bebidas quentes. Todas as peças de campanha devem ter, no final, uma frase de advertência, como “beba com moderação” ou “beba com responsabilidade”.
Na opinião de Narchi, as pessoas que querem proibir a publicidade deveriam criticar quem vende álcool a menores, ou pais que levam filhos aos bares, ou guardam cerveja e uísque em casa.

Comecei com R$ 0,40 de pinga”, diz internado

Há cinco anos o adolescente X, hoje com 15, experimentou o primeiro gole de cachaça. Sentiu enjôo e tontura, mas não desistiu. Provou novamente, achou o gosto melhor e continuou ingerindo doses cada vez maiores. Não demorou muito, passou a consumir também maconha e crack. Ele só se deu conta de que era dependente químico quando pegou uma faca para agredir o irmão, que o havia surpreendido pegando dinheiro de sua carteira.
X é um dos 40 adolescentes entre 14 e 18 anos que fazem tratamento contra a dependência química na Associação Promocional Oração e Trabalho, em Campinas, dirigida pelo padre Haroldo Rahm. Ele está lá há oito meses e já se sente outra pessoa. “Vontade de beber e usar drogas sinto até hoje, mas penso antes no quanto havia perdido lá fora, e isso me dá forças para continuar”, diz.
O garoto conta que começou a beber algum tempo depois que o irmão nasceu. “Quando ele chegou, todas as atenções eram em só torno dele. Achei que havia perdido meu espaço e comecei a beber”, diz. Segundo ele, no início, R$ 0,40 de cachaça já eram suficientes para deixá-lo alegre. Mas, com o tempo, as despesas foram aumentando e ele passou a furtar os pais. “Chegava a abraçar meu pai só para ver se ele tinha moedas nos bolsos. Aí, esperava ele dormir para pegar o dinheiro de seu paletó”, lembra.
Outro interno da clínica, Y, também de 15 anos, ainda não se adaptou: “Estou aqui há pouco mais de um mês e ainda sinto crises de abstinência. A sorte é que tenho apoio.”
Segundo o padre Haroldo, o tratamento é feito sem nenhum tipo de medicamento. “A única coisa que fazemos é dar amor e mostrar os caminhos que há para seguir”, diz.

Festa virtual ensina a beber sem exagero

O Hospital Albert Einstein mantém um site voltado exclusivamente à orientação de jovens e adultos que gostam de beber. O site (http://www.acquacom.com.br/crm/www.einstein.br/alcooledroga) é um dos mais visitados do hospital. Segundo o médico Sérgio Nicastre, coordenador do Programa Álcool e Drogas, o site recebe cerca de 30 mil visitas por mês. Depois disso o setor mais procurado do site do hospital é a maternidade, com 6.000 visitantes mensais. Chamado de “Venha para a nossa festa”, o site ensina a beber com moderação. Também permite ao internauta testar o seu nível de tolerância ao álcool. Quando acessa o site, o internauta precisa responder a algumas perguntas. Alguns exemplos: nome, idade, peso, altura, o que comeu no jantar, como pretende chegar à festa, quanto pensa em beber e como está seu estado de espírito. Depois entra uma mensagem. “Beba com moderação porque a ressaca virtual também é dose”. Em seguida vem outra pergunta: qual a melhor maneira de voltar sóbrio? Se o internauta acertar, entra um texto desmistificando a lenda de que água gelada e café curam a bebedeira. Na seqüência chega-se à festa, onde estão disponíveis várias opções de diversão. Há recomendações para quem bebe demais, mistura sexo com bebida ou dança, e um alerta a quem se arrisca a dormir no sofá.
(CRISTINA CHRISTIANO - Diário de São Paulo – 6/06/2004)



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