Para os adolescentes, beber e pensar não se relacionam
Os adolescentes que bebem demais enfrentam uma série de
riscos, que variam de ferimentos acidentais a morte por
envenenamento alcoólico. Se as pesquisas iniciais a esse
respeito forem confirmadas, os cientistas talvez possam
acrescentar mais um perigo a essa lista, em breve: danos
cerebrais. Estudos preliminares indicam que beber de
maneira excessiva regularmente pode danificar os cérebros
adolescentes e dos jovens adultos, ainda em estágio de
desenvolvimento, e talvez destruir as células cerebrais que
ajudam a governar o aprendizado e a memória. Recentes
estudos científicos representam as primeiras pinceladas do
retrato emergente do álcool sobre o cérebro dos jovens: -
Exames tomográficos de cérebros de adolescentes que abusam do
álcool sugerem danos ao hipocampo, a região do cérebro
responsável pelo aprendizado e memória. Em média, os jovens
que bebem pesadamente têm hipocampos 10% menores do que os
seus colegas, de acordo com um estudo. -Um segundo estudo
demonstrou que os adolescentes que bebem demais se saem mal em
testes de memória. - Tomografias cerebrais de jovens
mulheres que beberam pesadamente na adolescência demonstram
regiões de baixa atividade cerebral. Em risco estão pelo
menos três milhões de adolescentes norte-americanos que abusam
do álcool regularmente. As pessoas brincam com a idéia de
que o álcool mata neurônios, diz Duncan Clark, pesquisador do
Centro Médico da Universidade de Pittsburgh. "Bem, nesse caso
as implicações são bastante sérias". Clark e outros
cientistas temem que os adolescentes e jovens adultos que
ficam bêbados regularmente sofram danos cerebrais duradouros,
o que tornaria mais difícil para eles se sair bem no trabalho
e nos estudos. Os críticos alegam que é cedo demais para
imputar a culpa pelos danos cerebrais ao abuso do álcool. Eles
dizem que muitos dos adolescentes que bebem demais também usam
outras drogas e sofrem outros fatores de riscos capazes de
prejudicar seus cérebros. Mas os pesquisadores enfatizam
que embora o trabalho esteja ainda em seus primeiros estágios,
as evidências se inclinam rumo a uma ligação entre o álcool e
os danos a um cérebro jovem. As pesquisas demonstram que
muitos norte-americanos jovens favorecem porres pesados, com
quatro ou cinco doses de bebida consumidas em rápida
seqüência. Uma pesquisa recente da Escola de saúde Pública
da Universidade Harvard, em Boston, concluiu que 44% dos
estudantes tomam porres ocasionais, e que 74% deles dizem ter
passado por essa experiência durante o segundo grau.
"Temos um problema sério com o álcool entre os jovens",
diz Enoch Gordis, diretor do Instituto Nacional de Abuso do
Álcool e Alcoolismo (INAAA), parte do Instituto Nacional da
Saúde, em Bethesda, Maryland. Gordis e outros especialistas
dizem que os novos estudos, ainda longe de completos,
representam uma advertência de que o álcool pode prejudicar os
cérebros dos jovens. "Os adolescentes que bebem demais podem
não realizar seu potencial máximo", diz Gordis. Até
recentemente, os pesquisadores acreditavam que o cérebro já
havia completado seu desenvolvimento, na adolescência. Agora,
os cientistas compreendem que o cérebro realiza importantes
avanços até os 20 ou 21 anos de idade. Aaron White,
pesquisador do Centro Médico da Universidade Duke, em Durham,
Carolina do Norte, e seus colegas estão tentando determinar se
isso significa que o cérebro jovem é um alvo especialmente
vulnerável ao álcool. A equipe que ele dirige injetou
altas doses de álcool em ratos jovens -o equivalente humano a
tomar 12 cervejas em uma noite. Os ratos tiveram um dia de
folga, e depois mais uma dose. A equipe manteve esse padrão de
porres induzidos por 20 dias. A equipe esperou que os
ratos amadurecessem e se tornassem adultos, e os colocou em um
labirinto para teste de memória. Inicialmente, eles se saíram
bem. Mas o pesquisador H. Scott Swartzwelder decidiu testar se
haviam sofrido danos cerebrais mais sutis, que surgissem em
situações de pressão. Para descobrir, os ratos receberam uma
injeção de álcool e foram colocados no labirinto. O
pequeno consumo de álcool não prejudicou o desempenho dos
ratos que não haviam sido submetidos ao tratamento de porres.
E nem retardou os ratos que recebiam doses regulares de álcool
como adultos. Mas os ratos que haviam recebido alta dosagem de
álcool como adolescentes encontraram problemas. Cometeram
erros e mais erros. "Eles tiveram desempenho duas vezes
pior do que o dos demais grupos", diz Swartzwelder.
Possível dano ao hipocampo - A equipe considera que o
álcool tenha causado ferimentos no hipocampo, uma região
cerebral usada para tarefas de memória e aprendizagem. As
conclusões foram divulgadas na edição de agosto da publicação
"Alcoholism: Clinical and Experimental Research" ["Alcoolismo:
Pesquisa Clínica e Experimental"]. Outras pesquisas
sugerem que bebedeiras sobrecarregam um receptor de proteína
nas células do hipocampo, diz White. Quando operam
adequadamente, os receptores ajudam o cérebro a codificar os
acontecimentos recentes. As proteínas ajudam a instalar uma
lembrança de forma que facilite sua utilização posterior.
Os pesquisadores acreditam que as bebedeiras podem
conduzir à morte de células no hipocampo. A perda dessas
células talvez explique o mau desempenho dos ratos no
labirinto, diz Swartzwelder. Há também pesquisas com seres
humanos sugerindo que adolescentes e jovens adultos que passam
por bebedeiras regularmente estão danificando seus hipocampos.
Os adultos que bebem pesadamente por 20 ou 30 anos
danificam, sabidamente, certas regiões de seus cérebros. Mas
acreditava-se que os ferimentos resultassem de décadas de
banhos de álcool tóxico no cérebro, diz Michael De Bellis,
pesquisador do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh. De
Bellis e seus colegas recrutaram 12 adolescentes e jovens
adultos com sérios problemas de bebida. Eles realizaram
tomografias em seus cérebros e as compararam com as de 24
jovens sem problemas de bebida. Em média, os jovens que
bebem têm hipocampos 10% menores do que os do grupo de
controle, "uma diferença substancial", diz Clark, co-autor do
trabalho. Quanto maior tenha sido o período em que o
adolescente vem bebendo, tanto menor seu hipocampo. O
estudo em pequena escala, publicado pelo "The American Journal
of Psychiatry" em sua edição de maio, não prova que o álcool,
e não outro fator qualquer, danifica o hipocampo, acautela De
Bellis. Mas essas conclusões se enquadram em outro estudo
de MRI (imagem magnética), este com 10 mulheres jovens que
costumavam abusar do álcool na adolescência. Todas as 10
haviam deixado de beber antes do estudo. Os pesquisadores
usaram um tipo de MRI que fotografa o cérebro enquanto as
mulheres realizam um teste -no caso, tinham de lembrar a
localização de objetos em uma tela de computador. Comparadas a
10 mulheres saudáveis da mesma idade, as mulheres com
antecedentes de bebida encontraram problemas para relembrar a
localização dos objetos, diz Susan Tapert, co-autora do
trabalho, da Universidade da Califórnia em San Diego. As
imagens magnéticas das 10 bebedoras mostram regiões mais
lentas em seus cérebros. A preocupação é que o álcool tenha
danificado partes do cérebro envolvidas com a memória
espacial. No mundo real, esses danos poderiam causar problemas
para operações matemáticas ou até mesmo na simples leitura de
um mapa, diz Tapert. E o estudo sugere que os danos
cerebrais, se existem, são duradouros. Algumas das mulheres
testadas, que estavam perto dos 20 anos de idade (alguns anos
a mais ou a menos do que 20) estavam livres do álcool há
meses. No entanto, continuavam a demonstrar deficiências em
suas funções cerebrais, diz a co-autora Sandra Brown. A
equipe de San Diego descobriu sinais adicionais de problemas
de raciocínio em um estudo com 33 adolescentes, na casa dos 15
e 16 anos, que vinham bebendo pesadamente já há alguns anos.
Os pesquisadores deram a eles uma lista de nomes e 20
minutos mais tarde pediram que a repetisse. Os 24 membros do
grupo de controle, sem antecedentes de consumo pesado de
álcool, se lembraram de 95% dos nomes. Os que abusaram do
álcool mencionaram apenas 85% deles, diz Tapert. Isso
equivale a tirar nota B em lugar de A em um exame, diz ela. Os
pesquisadores descreveram seus resultados na edição de
fevereiro de "Alcoholism: Clinical and Experimental Research"
["Alcoolismo: Pesquisa Clínica e Experimental"]. Uma vez
mais, a implicação é de que o álcool prejudicou regiões do
cérebro envolvidas com a memória. Os adolescentes que bebiam
tiveram problemas para se lembrar de nomes -algo que pode se
traduzir em dificuldade para recordar fatos durante provas
escolares e se agravar na direção de péssimos resultados para
os seus estudos, diz Brown. Essas conclusões sugerem que o
álcool ataca o cérebro, se bem que as três equipes de
pesquisadores tenham declarado que os resultados ficam bem
aquém de uma acusação formal. É quase impossível localizar
pessoas que abusem de álcool que não tenham usado outras
drogas como a maconha, dizem. Talvez os danos resultem da
maconha, e não do álcool, e isso cause as dificuldades de
memória, diz Linda Spear, pesquisadora de álcool e drogas na
Universidade Estadual de Nova York em Binghampton. E os
estudos de tomografia são pequenos demais em escala para
oferecer prova de danos cerebrais, diz ela. Não desistam
dos jovens - Houve uma "corrida para julgar" da parte da
comunidade de pesquisa, diz Spear. Ela se preocupa com a
possibilidade de que as pessoas descartem os jovens que abusam
do álcool como irrecuperáveis. "Precisamos ser
cautelosos", diz Kenneth Sher, pesquisador do álcool na
Universidade do Missouri, em Columbia. Os estudos realizados
até agora não provaram conclusivamente que o álcool danifica o
cérebro jovem. "No entanto, são conclusões extremamente
provocantes", diz. As pesquisas de Sher sugerem que
adolescentes que bebem demais encontram problemas em testes
cognitivos. Suas conclusões sugerem que o cérebro é mais
vulnerável ao assalto tóxico do álcool na adolescência, e não
nos anos de universidade. Swartzwelder diz que ele
apostaria na teoria de que o álcool prejudica o cérebro na
juventude. "As linhas convergentes de evidências oferecem um
argumento bastante convincente", diz. No mínimo, as
conclusões deveriam alertar os pais, professores e outros, diz
Brown. Os garotos com problemas de álcool deveriam ser
tratados o mais rápido possível, diz ela. Se novas pesquisas
provarem que beber demais danifica o cérebro, os problemas
podem ser revertidos, alega. Mesmo que as pesquisas
descartem os danos cerebrais, há preocupações quanto à
possibilidade de que beber demais prejudique a memória de
curto prazo, diz Swartzwelder. O álcool, acredita-se, perturba
os receptores cerebrais que formam as lembranças, diz. Assim,
mesmo que as células não morram, uma dose pesada de álcool
prejudica a capacidade de codificar eventos e fatos recentes.
Portanto, os garotos que estudam de dia e bebem de noite têm
problemas em lembrar suas lições na prova do dia seguinte.
Swartzwelder tem uma mensagem simples para os estudantes:
o álcool faz mal à memória. (USA Today)
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